Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Assim todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça. Karl Marx.

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Tenho uma amiga muito sacana. E que, as vezes, me leva para suas sacanagens. Ela tem uma bela vida - não é rica, mas como o pai é diplomata, morou em vários lugares do mundo até estabelecer-se aqui na cidade. Volta e meia, ela recepciona alguns amigos estrangeiros quando eles aportam por aqui. Numa dessas ela me liga e solta: - vamos ao restaurante X esta noite? Preciso encontrar um russo e um italiano que conheci em Estocolmo. Como boa amiga que sou, aceitei na hora. O restaurante era o da moda, o do momento. Essa minha amiga gosta muito do que é in, gosta de aparências como ninguém. Deve ser por isso que está sempre impecável, lindíssima. Cheguei no horário marcado. Costumo ser pontual. Claro que ela não. Sentei-me ao balcão e 15 minutos depois senti uma lufada de vento e de perfume caro subir-me às narinas. É ela que entra escoltada por dois belos exemplares masculinos. Os dois altos, um castanho, outro meio arruivado. Ambos muito másculos. Após as apresentações corriqueiras nos sentamos na mesa reservada por ela. Noto que minha amiga está "diferente" hoje. Parece mais elétrica e mexe-se como um polvo. Não pára. Chega a ser enervante. Falamos em inglês, que eu, muito a contragosto falo - até entendo por que o francês foi substituído pelo inglês como língua "universal", mas nunca vou aceitar. A amiga convida-me para ir ao banheiro. Coisinhas de mulheres, sussura ela aos convivas antes de pegar meu braço e me arrastar. Quando fechamos a porta pergunto o pq de tanta agitação e ela revela que está tomando um medicamento milagroso para não ter apetite. Eu, que tenho pavor dessa ditadura da estética da magreza, revolto-me. Ela me garante que é "seguro" e que é apenas uma "ajudinha" para não acumular o que mais odeia- quilinhos a mais. Tenho pavor a essas futilidades, mas gosto tanto dela que relevo. Voltamos à mesa e o restante da noite foi recheada por disputas dela como o russo para ver quem entornava mais vodka- não é difícil imaginar quem ganhou..Lá pelas tantas a mistura dos medicamentos com o destilado começou a dar sinais de grandes problemas. Dessa vez foi eu que a arrastei ao banheiro. Minha amiga, sempre tão refinada, entre palavras desconexas vomitou tudo o que não comeu em uma semana. Lavou o chão e sua roupa de grife. Tentei fazer o que pude, mas seu estado era deplorável. Quando caminhamos de volta à mesa, os rapazes não disfarçaram o olhar de repulsa ao reconhecerem os restos de salada ainda pendurados em seu vestido. Fiz o que pude mas sobrou um pouco da prova do crime. O encontro estava encerrado. Chamei um táxi e levei minha amiga para casa. Ela não era a dama de sempre, falava palavrões, me xingava e xingava tanto o taxista que achei que ele iria nos largar ali mesmo. Em casa, com toda delicadeza tirei sua roupa e a coloquei na banheira. Ela ficou toda encolhida e pediu para que eu entrasse também. Me despi e quando entrei ela se aninhou em meus braços. Não sei se foi o álcool ou nossa vontade reprimida, só sei que nunca havia pensado em minha amiga daquele jeito. Nunca mais fomos as mesmas. Mas afinal, quem é o mesmo dia após o outro?

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Cresci cercado de mulheres. Todos os tipos. Todos os cheiros. Lembro dos brilhos, das plumas e da movimentação na casa à noite. A vida era noturna, até hoje durmo pouco - herança daqueles dias. Observava aqueles braços, pernas, bocas e cabeleiras, pelas frestas das portas. De manhã, bem cedinho, tinha que rumar para a escola ainda sonolento, pela noite mal dormida. Aliás, depois que comecei a frequentar a escola decaiu muito minha instrução, já não tinha mais tanto tempo para ler o que realmente me interessava. Álgebra, geometria, ciências,...Não tinha paciência para as disciplinas formais. A casa cheirava feito o mercado árabe da cidade-um misto de cheiros doces, uma mistura exótica. Cada uma das mulheres me ensinou muito. Muitas eram analfabetas e a muito custo ensinei-as a ler, usava como incentivo os romances de capa/espada que tinha na casa. As histórias de mocinhas indefesas e virgens que eram salvas do vilão, incentivava-as a querer aprender. Minha tia, a dona do casarão e de seus corpos, achava tudo uma grande bobagem e sempre que podia sentenciava:-Pra que puta tem que saber ler e escrever?O que importa é estar com "tudo" limpinho e agradarem aos olhos. Mas eu, não por querer ser bom samaritano ou o que o valha, queria é que elas pudessem ler. Não consigo conceber um mundo em que tenha gente sem conhecimento de prosa e poesia. É um desperdício. Claro que além de várias iniciações que tive com essas mulheres: a primeira meia de seda, o primeiro sutiã, a primeira cintura desnuda eu também tive minha primeira noite. Todas foram muito generosas e me disputaram bastante, algumas mais incisivas outras mais elegantes, mas no final escolhi uma menina mais nova que havia chegado na casa a pouco, foi a única que não me disputou com palavras, mas com os olhos. Hoje escrevo histórias para viver. Histórias dos outros, a minha ainda segue somente comigo. Esse é apenas um pequeno trecho, uma degustação.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O rosto dele era um mapa geográfico. Mapa físico, cheio de ranhuras. Não era velho - era marcado, lanhado. Quando o vi pela primeira vez senti certa repulsa. Nunca o vi bebendo água, a isso atribuí sua secura. Acordava bebendo qualquer líquido que contivesse álcool. Nunca água. Com nossa convivência fui me acostumando e esse fato tornou-se natural. Habituamo-nos com tudo, ou quase tudo. A casa ficava numa colina, na verdade num declive que chamávamos colina. O aluguel era em conta, podíamos pagar com o que descolávamos nas ruas dando pequenos golpes. À noite o trânsito de pessoas era incontável, acordávamos sempre com gente estranha espalhada pela casa. Nossa vida era levada em meio a bruma da fumaça e dos vestígios de diálogos. Não lembro de grandes conversas. Lembro de grandes olhares, de sensações. As palavras não eram nosso forte. Foi assim até o fim. Sou um sujeito de poucas palavras e ele também o era. Não sei quando nos apaixonamos por ela. Creio que foi no mesmo dia que nos desapaixonamos por nós mesmos. Ela era fatal e deliciosa. Quando a preparávamos, no início, era tão prazeiroso que posso sentir seu gosto ainda hoje. Quando ela nos dominou já não tinha tanta graça assim. Acabou com ele caído ao chão, o arpão no braço e o último papelote dela em cima da estante. Nunca mais senti seu toque.
Com 12 anos eu e uma amiga juntamos nossos trocados, entramos em numa loja de discos e compramos o Thriller. De certa forma mudou nossa vida.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Estávamos na auto-estrada voando num carro que devia ter uns 30 anos de uso. Mas era classudo, um rabo de peixe que em seus dias de glória fizera bonita figura. Eu não ia ao volante. Nunca dirigi. Nunca gostei. Resquícios da forçação de meu pai, um cara que sonhou a metade da vida com um possante que nunca pode pagar. Meu velho é um camarada que nasceu numa dessas cidadezinhas minúsculas do Hemisfério Norte. Quando eu mal tocava nos pedais de um carro ele já me colocava na direção. Pobre diabo, eu nunca quis dirigir. Meus homens sempre o fizeram por mim. Mas nesse dia, corríamos feito loucos pela pista, sem medo nem frescuras. O cara do volante bebia doses em cada gole, eu fumava meu baseado tranquilamente tentando ver a paisagem que passava como em flashes. Concretamente, éramos um bando de desocupados sem culpa de sê-lo. Víviamos com recursos de pensões, pecúlios, etc,.. sem maiores preocupações em ter que garantir o sustento. O que ganhávamos dava pra pagar a bebida, o baseado e meter o pé na estrada. Parávamos somente para comer ou vomitar - incrível como a qualidade da bebida decaiu nesses últimos anos. Passávamos desapercebidos pelas cidades maiores, mas nas pequenas, praticamente éramos atrações de circo. Viajávamos em seis, transávamos entre nós, e com quem nos agradasse pelo caminho. Nunca nos aborrecíamos uns com os outros - havia uma espécie de pacto silencioso de não nos atentarmos com coisas que a maior parte das pessoas se aborreceria: pés sujos, migalhas pelo carro, baganas, falta de banho, bebidas derrubadas,..Não deixávamos que nada nos indispusesse uns com os outros. Você deve estar se perguntando:- Pô ,quem vive assim tão desencanado? Conviver é sinônimo de treta..Mas conosco não. O único pacto implícito era o de que quando começassem os atritos o grupo se separaria. O que ocorreu 13 meses e 21 dias após o início de tudo. Foi num final de tarde alaranjado, cada qual com seu copo na mão..

segunda-feira, 15 de junho de 2009


A praia tinha o mar aberto sem qualquer acidente geográfico, dessas que não podemos olhar por muito tempo com o risco de cair na melancolia. Estava a tostar meu corpo com disciplina, virando a cada 15 minutos - quem pensa que voltar da praia com um bronzeado perfeito é fácil, não conhece essa arte. Estava nessa, quando o perfeito macho latino esticou sua toalha perto de onde eu estava. Ele era muito alto, também tinha um bronzeado disciplinado, o peito era peludo-um bom macho latino tem sempre o peito peludo, os olhos profundos e negros. Eu, usando o livro como escudo, observava o latino peludo entre as páginas. Claro que ele tinha que pavonear-se quando me viu. Levantou, espreguiço-se e tirou seu calção, ficando somente com uma sunga que mais insinuava que escondia. Depois de fazer muito barulho e macaquices para que eu olhasse, ele veio em minha direção: - vamos jogar frescobol? Levantei-me lentamente dando tempo para ele olhar meu corpo milimétricamente. Jogamos bastante até ele me convidar para mergulharmos. Que peludo latino saliente...Me convidava para ir cada vez mais ao fundo. Como era mais alto chegou uma hora que não dava mais pé para mim, estratégia dele para segurar-me dentro d'água. Hummm, a saliência estava dentro de sua sunga. Nos roçamos bastante, ele passou as mãos feito uma enguia por todo meu corpo, quando achei que era tempo de ir nadei rapidamente em direção à praia. Meu latino ficou frustrado mas não tinha o que fazer. Na praia tentou saber se eu estava hospedada ali mesmo, se podia dar o telefone e essas perguntas que os homens fazem para poder dar continuidade ao "encontro". Somente peguei minhas coisas e segui para meu hotel. Chegando lá encontrei meu marido sentado no bar, com um sorriso largo e lindo, típico de um homem de negócios em lua-de-mel com sua deliciosa esposa. Estávamos casados há dois dias. - Divertiu-se na praia querida? - Muito. E selei minha resposta com um beijo cheio de promessas.

domingo, 14 de junho de 2009


Certa vez me apaixonei saindo do trabalho. Como era misterioso o meu amor. Como era sexy o meu amor. Como era moreno e alto o meu amor. Como era desconhecido o meu amor. Trabalhava em frente a uma praça bastante antiga, com aquelas luminárias do XIX, bancos trabalhados e alguns heróis de bronze branindo espadas em cima de seus cavalos. Venho de uma terra de "bravatas e heróis", travadas em nome da "República". E era nessa praça que via, todos os dias, o objeto de meu desejo. O trabalho era muito chato e passava boa parte do expediente pensando nos cinemas, bares e teatros que nós frequentávamos. Imaginava o nosso "namoro" tão vivo e intenso que as vezes ao sair e vê-lo sentado na praça, tinha ímpetos de ir lá acarinhar seu cabelo negro. Teve uma vez que devo ter passado umas 4 horas do plantão que tinha que fazer, às moscas, imaginando nosso namoro, noivado, casamento, filhos e nossas maravilhosas férias, sempre quentes e nada monótonas. Digo com propriedade, podemos viver uma vida em horas, com filhos e tudo mais. Quando achei que já estava ultrapassando os limites da sanidade, resolvi sair dos sonhos e passar mais tempo na tal praça do meu amor. Sentava sempre estratégicamente posicionada, nem tão perto que desse bandeira, nem tão longe que não desse pra ele me ver. O problema é que ele nunca me via. Na verdade ele não via nada, nunca olhava pros lados, sempre fixo em um dos seus grossos livros, sempre. Mesmo quando estava mais quente usava um casaco comprido, que dava a ele um ar vampiresco e misterioso, sempre. Tinha um nariz na proporção exata para seu rosto forte e moreno. A cor da pele era uma coisa a parte de tão linda, era de um moreno acobreado. Só o via do mesmo ângulo, curvado e meio à egípcia, sobre o tal livro grosso, sempre. Como era maravilhoso meu amor, e como eram lindos nossos filhos, como era bom nosso casamento, que homem perfeito. Resolvi adotar uma estratégia para que ele me notasse, passei em uma livraria e comprei o livro mais grosso que vi: O ser e o nada do Sartre. Como sempre, saí do trabalho e me posicionei perto do meu amor. Abri lentamente o livro, fazendo com que o título ficasse visível a ele, afinal meu amor era um amante das letras, eu tinha que mostrar que era uma mulher de bom gosto literário. Minhas pernas bambearam quando vi ele, pela primeira vez, erguer a cabeça em minha direção. Não acreditava, ELE me notara, via que tentava observar o que eu estava lendo, facilitei dando uma levantadinha no livro. De repente ele ergueu-se e caminhou em minha direção. Toda "nossa" vida passou como um flash por minha mente, na verdade "nossa" vida era um flash. Ainda de perna bamba, esperei ele se postar na minha frente, mais alto que um Tótem. O sol refletia em seu rosto e era difícil vê-lo com perfeição. Então aconteceu, ele perguntou: - gostas de Sartre? Nesse momento sua cabeça cobriu o sol e revelou uma boca negra: - ele não tinha dentes. Respondi de pronto: - e lá te interessa se gosto do Sartre?